A academia vai além

Hoje amanheceu um dia lindo. Domingo de sol. Em geral, acordo cedo. Mesmo aos domingos. E resolvi ir para a academia. Embora não seja a atividade que mais gosto de fazer, me divirto. Rio com meus “desajeitos” nas turmas de funcionais e sempre saio de lá com um novo aprendizado. E vejo sentido no que faço lá. Quero ter um futuro podendo me abaixar, andar, ter autonomia e independência. E para isso preciso de várias atitudes HOJE. Ter relações de amizade, ter prazer na vida, me aceitar e ser ativa. Eu faço yoga (AMOOO) e canto também. (ADORO). E também vou à academia; Sem essa de “tá pago”. No meu ritmo. Um dia uma aula de funcional. Um de esteira. E as aulas em grupo. Ah… as aulas em grupo” As que mais gosto”.

Pois bem. Estava eu, lá, naqueles aparelhos de musculação e comecei a observar as pessoas que lá estavam. Fiquei pensando: o que será que está por detrás de cada uma daquelas vidas? Eu não costumo ir à academia de domingo e nunca pensei que tanta gente frequentasse academia nesse dia.

Por trás de cada esforço, o que cada um ali estaria buscando? Um corpo dentro do padrão? Vencer limites? Correr atrás do prejuízo? Compensar um sábado de “gordice?” Malhar pra não pensar? Pra não sentir? Hábito? Ou mesmo sem saber o porquê de estar ali? Muitas devem ser as razões daquelas pessoas. Eu lá envolvida nos meus pensamentos, imaginava se ali havia pessoas que investiam em se amar, em aceitar seus corpos, em se ver bonita. Como estavam se envolvendo na atividade de puxar tanto peso, que peso carregavam dentro de si? E lembrei do tempo também que levei para conseguir entender todas estas coisas. E todos os sacrifícios que já fizera para conseguir ser o ideal de alguém, sem nunca antes ter me perguntado se era o meu ideal (e eu nem entendia quem era esse alguém, e porque eu me maltratava tanto!). E tudo só fez sentido quando resolvi, de fato, olhar para dentro de mim, e buscar o que eu queria — com a mesma intensidade que investia em procurar ser o que alguém queria.

Nesse processo, fui me abrindo para mim mesma e encontrando o que realmente me fazia bem. O que me tocava a alma. Aprendi a valorizar tantas coisas que eu tinha — minha voz, minha simpatia, a forma de acolher as pessoas… E assim, passo a passo, venho encontrando sentido nos pequenos detalhes que me cercam. E hoje me sinto tão feliz em poder saber do que sou capaz e do que não sou, de repartir meus valores, das histórias que meu corpo conta e de que ser bonita vai muito além de uma aparência ditada por padrões impostos.

Hoje posso ir para a academia com outras perspectivas. Sem me sentir obrigada a forçar-me a ser igual a todo mundo que ali está. A entender que posso sim me desafiar a ser melhor, a vencer a preguiça, a correr um pouco mais na esteira. Mas compreendendo que dentro dessas práticas outras também devem acompanhar meu dia a dia. Que é preciso olhar para mim com gentileza, com cuidado, procurando o que me dá prazer; e que nem todos os dias as coisas serão do jeito que planejei. Que posso errar. Que a vida é um eterno aprendizado e que a aparência física é apenas um aspecto desta coisa linda que se chama vida.

Cristina Collusso é psicóloga (Unb), pós graduada em terapia familiar sistêmica, psicodramatista, especialista em TCC, formanda em comportamento alimentar pelo IPGS, e participante do grupo de estudos #VcTemFomeDeQuê?.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *