Qual é o peso do seu peso?

Quando você sobe na balança, quais números você vê? Aquele momento obscuro, aflitivo, aquele momento que parece que te define. Você sobe. Pronto, estão lá, estão gritando para você ver e agora também estão impressos na sua mente. Esses dígitos que te acompanham e parecem te definir.

Quando você sobe na balança, como se sente com esses números? Eles estão ai, cravados no seu peito. Ecoam na sua cabeça, e ecoam de novo. E mais uma vez.

Quando você sobe na balança, e sobe de novo e sobe mais uma vez, só para checar esses números, confirmar, carimbar, tatuar. E daí, mais uma vez, você sobe na balança. Pronto, decidiu. Pegou esses números e guardou-os com você, junto ao RG. Oi, quem é você? Olá, sou 60Kg, 70Kg, 110kg ou os quilos que a minha balança me indicar.

Você quer sair, ir à festa, curtir a night com as amigas, mas 60kg, 70kg, 110kg ou os quilos que a balança indicar, não são convidados. Não podem se divertir, não podem ser vistos. Então os 60Kg, 70Kg, 110kg ou os quilos que a balança indicar escolhem preto, escolhem cinta, escolhem usar truques de maquiagens que afinam os traços.

Nossa, que rapaz bonito! Opa, mas 60Kg, 70Kg, 110kg ou os quilos que a balança indicar não são dignos de um carinho, de uma paquera ou de sentir-se atraentes para si ou para outro alguém.

Sabe, esses dias levei os 60Kg, 70Kg, 110kg ou os quilos que a minha balança me indicar para passear no shopping. Ví um shorts lindo. Jeans, rasgado, descolado. Me fariam um mulherão. Claro, se eu não tivesse 60Kg, 70Kg, 110kg ou os quilos que a minha balança me indicar. Mesmo assim, desafiando o que já sabia – que não era merecedora de uma roupa descolada – fui experimentar. Pedi um tamanho. Não deu.

Pedi outro maior. Quase deu. Falando bem baixo, pedi a numeração seguinte. E deu. Mas meus 60Kg, 70Kg, 110kg ou os quilos que a minha balança me indicar estavam lá à mostra. Metade de fora, espalhados pelas coxas. Não poderia sair assim. Não era permitido.

Outro dia, fui levar os 60Kg, 70Kg, 110kg ou os quilos que a minha balança me indicar para a academia. Estava desconfortável. Espelhos, pessoas, roupa colada… Parecia uma piada. Eu me sentia uma piada. Eu, com todo aquele peso, que diabos estava fazendo lá?

No casamento da minha melhor amiga – claro, ela estava se casando – eu levei meus 60Kg, 70Kg, 110kg ou os quilos que a minha balança me indicar para prestigiá-la. Eu, com meu peso, sabia que o meu lugar era no banco da igreja, nunca em um altar.

Então, para mim, só restava por todas as manhãs, a minha balança me definindo e escancarando o meu fracasso, as minhas tentativas frustradas de me encaixar em um padrão e a lembrança de que eu não merecia ser feliz, até que aqueles dígitos baixassem.

Sim, muitas mulheres imprimem em sua identidade o seu peso. Muitas mulheres imprimem seu valor, em seu peso. Muitas mulheres deixam de se vestir como querem, deixam de sair com amigas, deixam de paquerar e não se sentem merecedoras de um bom momento só porque seu peso talvez não seja o peso considerado “ideal” ou “padrão” para sí.

Hoje, o peso passou a ser muito mais do que um indicador de músculos, órgãos, gordura e líquidos. O peso passou a ser fator determinante de valor e merecimento entre mulheres cada vez mais jovens. A busca por menos e menos tem adoecido as meninas. Tem limitado as mulheres em suas diversas capacidades de produção.

A estética tem aprisionado e cegado jovens. Muito além disso, o peso tem se tornado um fardo difícil de carregar. O peso do peso está pesado e não estamos mais na posição de corroborar ou disseminar isso. Pessoas são números apenas em seu RG, não em sua balança, quer ver?

Oi, meu nome é Natália, sou nutricionista, mãe, divorciada. Amo cantar, tinha uma banda de rock quando era jovem, hoje toco violão para a minha filha, que por sinal, vivo cheirando o cangote. Cozinho nos domingos em família, herdei esse dom da minha avó. Não dispendo um show com amigas. Sou impaciente, não sei andar de salto e sou bastante desastrada. Adoro batom vermelho, calça rasgada e tatuagem.

Amo casamentos, choro em todos. Roubo os doces da festa. Adoro o sanduíche de carne louca de festas infantis e não resisto a uma liquidação de roupas, maquiagens e hidratantes. Aliás, amo hidratantes. Desde muito cedo, faço questão tocar todo meu corpo e escolher à dedo (ou por narina) qual perfume irei me oferecer!

E você, quem você é?

Natália G Vignoli, Nutricionista e participante do Grupo de Estudos #VcTemFomeDeQue?

 

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