Qual a medida da nossa saúde?

Não é novidade para ninguém que nos últimos anos a busca pela vida saudável virou uma pauta fixa na mídia oficial, nas mídias sociais e no dia a dia das pessoas. A busca por um corpo malhado ou por uma vida saudável não é exclusividade dos dias de hoje — quem tem idade para lembrar Jane Fonda e seus vídeos de aeróbica? O que temos de novo no movimento hoje é o alcance e a velocidade em que as informações chegam a nós.

E são muitas informações. Demais. Tantas que ficamos não só em dúvida, mas angustiados. Não é só o “isso pode?” ou “isso não pode?”; mas quantas gramas posso comer disso? ”, “quantos litros de água devo tomar?”, “quantos passos tenho que dar?”.

Criamos uma obsessão com a medida exata. Devemos dar 10.000 passos ao dia, para ter uma vida saudável. Temos que beber 3 litros de água por dia. Precisamos de 50% do prato de vegetais. Embora essas recomendações — andar, beber água, comer vegetais — sejam conselhos bons, junto com eles vem a ânsia do público para saber a medita exata de como levar uma vida saudável. Como se por trás desse números e da sua sugestão de precisão houvesse uma garantia na vida.

No fundo pensamos, se eu descobrir o que eu tenho que fazer exatamente, e fazê-lo assim como me disseram, nenhum grama mais, nenhuma a menos, eu serei saudável, e portanto feliz. E se eu não cumprir com exatidão a tarefa imposta, como alguém que vai contra um mandamento, terei minha sentença.

Mas na vida, meus caros, não há garantias.

Já dizia o poeta Fernando Pessoa que imortalizou o lema dos navegantes: “Navegar é preciso; viver não é preciso” — frase que na bela língua portuguesa ganha este duplo sentido especial.

A ciência nos traz conhecimentos e avanços preciosos para nossa qualidade de vida e longevidade. É muito bom saber que quem não fuma terá maior probabilidade de uma vida longa e saudável, do que quem fuma. Assim como quem faz exercícios, dorme bem, e tem uma alimentação baseada em vegetais — itens que fazem parte de um estilo de vida que eu inclusive sou adepta. Mas nenhuma dessas probabilidades nos dá uma garantia de papel passado. Assim como nada na vida.

Nem mesmo exames de sangue! Por melhor o microscópio, por mais avançado o exame, por mais competente o profissional de saúde, nada é 100% garantido.

Na vida há sempre um resto, um indeterminado, um improvável. Ela é, no fim, um lindo jogo de acasos. E o grande desafio dessa coisa chamada homem é saber lidar com esse improvável acaso que pode dar as caras. O maior deles, a morte.

O problema da busca da saúde, não é a busca da saúde em si. Mas quando ela cessa, e no lugar entrar a angústia da incerteza e da impotência que temos com nosso corpo. Por mais que o treinemos com uma disciplina militar, o corpo segue em seus processos independente de nós. E sofre quem achar que um dia irá controlar 100% o corpo.

A resposta então seria jogar tudo para o alto, comer bolo de aniversário no café da manhã, e esperar que o acaso dê conta? Claro que não, isso não é lidar com o acaso, é render-se à ele.

Mais do que isso, não há uma resposta exata em como lidar com essa incerteza. Cabe a cada um de nós uma saída própria para ver a vida, esse mistério sem limite, além do metro curto de números exatos.

 

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