A tal da culpa

Sempre ouço a pergunta. O que fazer com a sensação de culpa depois de comer algo que não estava nos planos, seja porque o desejo falou mais forte ou por um quadro de compulsão. Nem vou entrar nos pormenores de cada caso. Apenas quero convidar uma reflexão. Mas por que culpa?

Alguém pode responder: a culpa é a reação de fazer algo que consideramos ruim que, sem saber como remediar, nos sentimos culpados. Então no caso, comer algo não planejado seria ruim, pois uma vez que comemos é isso, não tem como descomer (há transtornos que usam métodos compensatórios, mas voltar no tempo não está entre estes métodos), o que nos resta é o sofrimento da culpa.

Convenhamos que no fundo é uma saída infantil. É chorar, fazer birra, se contorcer porque as coisas não se deram como no fundo queríamos. Mas mais do que isso este cenário é o contrário do “eu escolhi comer”. Veja, não importa se você está em dieta, ou se apenas está levando uma alimentação maioritariamente saudável, em qualquer uma dessas situações você pode escolher comer um doce (por exemplo), certo? Qualquer nutricionista ou nutrólogo vai confirmar isso. Então qual é o problema?

O problema é tratar o momento fora da escolha. A culpa vem quando delegamos a responsabilidade da escolha para um algo maior. A culpa religiosa vem do pecado de ir contra as leis supremas divinas. A culpa na alimentação? Vem de querer fazer algo que você julga ir contra um dever imposto. O famoso “eu tenho de”.

Achamos que devemos ser sempre corretos. Seguir a vozinha do “eu tenho de” que vem de fora e nem sabemos bem de onde. Mas por vezes o nosso desejo vai contra essa vozinha. Aí temos duas opção, nos responsabilizar por esse desejo, assumí-lo e encará-lo. Ou sofrer no “eu quero, mas não posso”. Claro, ceder aos desejos a cada impulso é ceder aos instintos, e nós temos um lado racional que pode nos ajudar a guiar a vida em sociedade. Mas nunca ter coragem de ceder ao desejo é viver em conflito.

Então qual é a cura da culpa? É o proveito do desejo. Quando você decidir que não quer ouvir o “eu tenho de” (sim, decidir, porque ninguém está te forçando, está?), aproveite cada segundo, e faça desse momento uma celebração do seu lado impulsivo que foge às regras, que nada mais é do que nosso lado criativo. A felicidade vence a culpa.

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