Você usa dieta para se rotular?

Uma observação constante que eu faço em consultório é que hoje em dia estamos abandonado (que bom!) as comidas industrializadas cheia de rótulos, mas começamos a usar os rótulos em nós mesmos.

O que eu quero dizer com isso? As pessoas começaram a usar os nomes da dieta que seguem de forma identificatória. “Paleo”, “low carb”, “flexível”, “vegana”, seja qual ela for, tornou-se mais do que uma escolha e virou uma identidade, uma forma de pertencimento. É o grupo que fazemos parte, nosso conjunto de identidade, a resposta para a pergunta “quem eu sou?”. As pessoas usam esses codinomes, enfim, para se rotular, e esquecem que são pessoas individuais.

Isso não é uma avaliação se essas dietas são boas ou não, porque isso vai de pessoa para pessoa, mas um olhar sobre como fazer parte de um grupo regrado dá um falso senso de pertencimento e segurança que pode ser preocupante. O resultado mais óbvio disso é um fla-flu desnecessário, uma briga agressiva online e offline sobre que está mais certo. Uma briga que, aliás, não faz sentido nenhum, já que o que é melhor para cada pessoa (em todos os sentidos dessa palavra) não é um fato a priori, mas uma escolha individual.

A comida tem em si um elemento de identificação. É um marcador de origem, de raiz. As culturas, inclusive se identificam internamente pelos alimentos de paladares exóticos que estrangeiros não conseguem apreciar — de conservas ácidas, a queijos marcantes. Mas o que temos hoje com as seitas nutricionais vai além disso. Não é uma germinação cultural, mas uma perda assustadora da autonomia.

Vejo pessoas que não conseguem confiar mais em si mesmas e na sua individualidade. O que acontece é que elas passam a tratar as estratégias alimentares como cartilhas religiosas, e que sem elas ficam paralisadas. É algo além de “vou seguir o plano da nutricionista à risca”, mas um comportamento que trata deslizes e contradições na alimentações como escolhas pecaminosas, traições aos grupos e até falha de caráter. Começamos a ver pessoas que não sabem fazer escolhas básicas do seu dia a dia, e que entram em pânico se alguma situação lhe coloca longe das regras do grupo.

O sintoma mais absurdo disso tudo é que passamos a julgar não apenas nossas ações, mas as das outras pessoas a partir escolha alimentar. Se alguém come de modo com que você concorda, isso vira louvável; mas se alguém faz escolhas diferentes, isso é uma falha de caráter. Aliás, hoje em dia não há algo mais digno de elogio do que conseguir seguir uma dieta e emagrecer — muito mais comentado do que sucessos profissionais ou atitudes de fato grandes, como ser um bom amigo, um bom pai, um bom filho, uma boa mãe. Ao mesmo tempo, não há crime pior do que engordar ou comer mal.

A resposta para tudo isso é longe de ser óbvia, e não acho que será uma única universal que servirá para todos. Mas precisamos colocar o comer de volta ao seu lugar. E que lugar é esse? Um lugar complexo, valioso e plural, mas que não deveria nos dominar.

Comer não apenas é uma atividade importante quotidiana, que marca nossos momentos, nossa cultura e nossas relações, mas também uma atividade leve e prazerosa.

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